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14/06/2014

"Um Paraná por ano é perdido", diz professor da Esalq sobre os impactos do mau uso do solo

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Produzir alimento para a população global que, até 2030, deverá chegar a nove bilhões de pessoas é um dos grandes desafios desse século. Desafio maior é produzir e, ao mesmo tempo, sem degradar o meio ambiente. Os debates sobre o tema são cada vez mais acirrados e dramáticos em eventos direcionados ao agronegócio, seja ele familiar ou empresarial. Institutos de pesquisas, universidades, entidades ambientais e de produtores rurais têm chamado a atenção para o impacto da agricultura – convencional ou orgânica – devido ao mau uso do solo e da água.

A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) estima que, anualmente, no planeta, 5 milhões de hectares entram em processo de desertificação. Isso corresponde, mais ou menos, à área cultivada com grãos no Paraná, um dos maiores estados agrícolas do país, responsável pela produção de 16,4 milhões de toneladas na safra 2013/14.

“Um Paraná por ano que é perdido”, diz  Carlos Armênio Kanthonian, professor da Esalq/USP, doutor em agroecologia e agricultura orgânica.

Segundo ele, em áreas de densa e inteira ocupação agrícola, a quantidade e a qualidade da água protegida dependem do padrão da agricultura praticada. Daí a importância da cobertura do solo.

“Um problema sério é a redução da qualidade e da quantidade da água disponível. Se compararmos uma área com floresta e a mesma convertida, depois, em agricultura, notamos que a sua capacidade de absorver água por unidade de tempo diminui. O resultado é que mais água escorre pela superfície e menos água desce para os lençóis, o que vai influir nas reservas para alimentar os cursos d’água, prejudicando minas e nascentes e, assim, o ambiente geográfico fica mais seco. O primeiro efeito é aumento da erosão e diminuição na infiltração.”, esclarece.

ORGANISMOS NATURAIS

De acordo com Armênio, “na vegetação natural há um grande complexo de organismos que vivem nessa interface entre a atmosfera e o solo, como as minhocas, que descem para o solo levando partículas que estavam na superfície e, quando retornam, trazem material do corpo do solo. Com isso, criam uma grande quantidade de galerias que permitem a absorção rápida da água. Um grande número de organismos trabalha de maneira semelhante e são mantidos por uma camada de materiais que caem das árvores e se depositam sobre o solo, folhas secas, galhos podres, todo esse tipo de material que na linguagem técnica é chamado de sera pilheira. A última fase dessa decomposição é o húmus. Na conversão de área florestal para a agricultura sempre ocorre uma diminuição na infiltração e, por isso, deve ser for feita uma agricultura que promova cobertura do solo cem por cento do tempo”.

Segundo o professor, no Brasil, este é um problema antigo e, quando não chega à desertificação, chega a uma fase intermediária, ou seja, “à formação de uma savana de origem humana, processo visível em todo o território nacional nas áreas onde a agricultura já se instalou. Uma vegetação que não consegue proteger o solo e não consegue ir para frente, porque depois que a área de agricultura é abandonada, se transforma em área de pasto e aí o gado rapa”.

Cita como exemplo a Mata Atlântica, que teve a maior parte de suas áreas, 88%, que correspondem, historicamente, a um quinto do território nacional, transformada em área agrícola, restando apenas 12% de vegetação arbórea.

“No Vale do Jequitinhonha, como também no Piauí, até no Rio Grande do Sul tem áreas sujeitas à desertificação, como na região de Alegrete. Se pegarmos a área agrícola do Estado do Rio de Janeiro, as zonas limítrofes do Sul de Minas, da Zona da Mata mineira, tudo aquilo que foi floresta no máximo, hoje é um pasto ralo.”

Armênio destaca que, quando essa situação de degradação acontece próxima a um centro consumidor importante, é econômico trabalhar sua recuperação devido a necessidade de produzir alimentos para abastecer essas localidades. Porém, acrescenta, na maior parte das áreas mais distantes é o abandono.

“É uma economia extremante debilitada, onde não se consegue mais manter as pessoas ali, há um esvaziamento, há um empobrecimento da natureza que reflete no empobrecimento das pessoas.”

AGROQUÍMICOS

Ele recorda que o processo de ocupação agrícola na Zona da Mata de Minas ocorreu quando ainda não havia a presença de produtos químicos na agricultura e faz comparação com a agricultura existente, hoje, no Cerrado, que utiliza esses produtos, que têm uma mobilidade na natureza muito maior, para controle de pragas e doenças.

“Então, na época do café, na segunda metade do século 19, quando acultura se expandiu para essa região de Minas, os danos causados eram localizados, não atingiam uma escala macro regional.”

Na atualidade, diz o professor, “o dano causado com o uso de agroquímicos  atinge uma área muito maior do que aquela onde o produto foi aplicado, porque os venenos correm com a água e vão contaminar uma área muito maior. No mundo moderno temos uma grande quantidade de substâncias químicas que nunca existiram anteriormente. Estamos ingerindo, respirando diariamente não apenas através de produtos de uso agrícola, mas também de produtos de uso industrial, de aditivos alimentares, uma salada de substâncias químicas”.

Com relação ao meio ambiente, o primeiro resultado, lembra, é desertificação ou salinização.

“Associado a esses processos, acontece secamento de um grande número de cursos d’água. No Brasil onde esse processo é mais visível, encontra-se mais adiantado na Bacia do Rio São Francisco, onde já foram perdidos centenas de afluentes”, denuncia Armênio.

CONSEQUÊNCIAS

Em sua opinião, no que diz respeito aos venenos agrícolas, “não sabemos o que isso vai causar no futuro”. “Por exemplo, o glifosato, que é o produto mais utilizado na agricultura, hoje, no mundo, sabemos que ele causa uma redução muito forte na população de anfíbios.De resultado, o que é que isso pode trazer para nós? Os anfíbios vivem de insetos, então é possível que a tenhamos um problema de praga simplesmente por causa disso.”

Armênio Kanthonian destaca a importância de o agricultor adotar as chamadas boas práticas agrícolas citando mais um exemplo, a Helivocerpa armigera .

“Essa lagarta está fazendo um estrago danado, mas ela ocorre como inseto e não se transforma em praga no Paraná. Aí, os cientistas da Embrapa Soja, estudando a causa disso, constataram que é porque no Paraná existe uma grande quantidade de inimigos naturais controlando a lagarta.”

Isso, diz, não acontece na Bahia, porque lá existem estes inimigos naturais, mas são eliminados pelo uso excessivo de agrotóxicos nas lavouras. É que na Bahia “as áreas são muito maiores”, pontua. “No Paraná as propriedades são menores, tem mais áreas de matas ciliares, mais área de vegetação natural , mais diversificação de culturas. A área média de soja no Paraná  é de cerca de 30 hectares, já no Oeste baiano as plantações são monoculturas em áreas muito maiores e uma ao lado da outra. É uma grande área que, hoje, sofre fortemente  estes fenômenos ligados à  infiltração de água no solo, como também pelo uso de agroquímicos. Como conseqüência, os mecanismos naturais deixaram de funcionar.”

Para o professor Armênio, alguns desses fenômenos não têm uma solução pronta, simples, definitiva.

“Precisam ser administrados e a chance de sucesso é maior na medida em passamos a usar soluções de natureza biológica, que copiem o funcionamento da natureza, em vez de usarmos soluções cada vez mais distantes do funcionamento do mundo natural, como rotação de culturas, controle biológico e práticas de manejo de solo.”


Fonte: SNA - Sociedade Nacional de Agricultura



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