Facebook Twitter RSS

Notícia

Versão para impressão
A-
A+


28/11/2014

Caçador de Pipa ou de Pica-pau

"Por isso, o céu reteve o orvalho e a terra deixou de dar os seus frutos". (Ageu, 10)

 Longe de politizar o drama da população do sudeste, sobretudo a de São Paulo com relação à falta d´água, mas sem deixar que o assunto se solubilize com as chuvas que chegam, faz jus tocar no assunto como uma lição desta seca que, temporariamente, se hiberna, pois, exceto por um dilúvio, ela retornará nos próximos anos se os governantes permanecerem na inércia de sempre. O sofrimento das pessoas, principalmente quando está em jogo a dessendentação, abomina quaisquer comentários maliciosos e intolerantes.

O momento é de pesar e compreensão, jamais de tirar proveito da desgraça alheia para obter dividendos políticos, independente se oposição ou situação, pois pelas circunstancias que ocorreu esta seca, provavelmente, levariam outras autoridades a agirem como a de São Paulo. Entretanto, é inegável e fundamental que o debate objetivo, claro e construtivo, jamais pejorativo, sobre o bem estar da população seja estimulado.

Em minha ultima matéria visei mostrar que o homem não tem qualquer culpa sobre a seca que assolava o sudeste, mas o tinha sobre o agravamento das consequências dela em virtude da destruição da bacia hidrográfica e também, paradoxalmente, chamei a atenção de que parte da água que passou a suprir a população vinha dos barramentos daqueles proprietários rurais que encontram resistências por parte dos órgãos ambientais em permitir construí-los.

Nela comentei sobre a importância da gestão da bacia como forma de minimizar os efeitos do El Nino e da necessidade de proteger as áreas de recarga hídrica, matas ciliares e nascentes para garantir as funções de manutenção da vazão e da qualidade de água, além dos trabalhos de engenharia no que tange a reservação nas propriedades rurais.

Entretanto, vendo o governo usar do volume morto das represas e do tratamento do esgoto para abastecer a população de água potável, fico estupefato e reflexivo para entender como se deixou chegar neste ponto e, por isso, os questionamentos: A quem imputar a culpa ou esta situação é fruto da imprevisibilidade da dimensão do El Nino? Em que pese a importância do reuso da água de esgoto – solução para o inchaço urbano das metrópoles -, no entanto, usá-la para consumo humano no Brasil, ainda mais em São Paulo dado o seu intenso regime de chuvas, é inadmissível. Mesmo que isso ocorra em algum país, no Brasil ainda é desnecessário, exceto para limpeza urbana e jardinagem.

Por ter vivido na “terra da garoa”, uma região com precipitação média anual acima de 1500 mm, inaceitável que o governo deixasse chegar nesta situação. Era agosto de 1987, em pleno inverno seco, quando desembarquei na região metropolitana paulista e conheci – mais que isso, senti na pele – o que significava a garoa. Foram 30 dias seguidos de chuva naquele mês e já nem tinha mais o que trajar. Todas as roupas e calçados encontravam-se molhados. Sol? Nem para remédio. A solução era usar os uniformes e EPIs fornecidos para os trabalhadores florestais. O que mais se via eram sapos e pererecas. Sentia-me um servo no reino dos anfíbios.

Por isso, e com minha ignorância, a dificuldade de aceitar que as pessoas tomem “água de esgoto”. Óbvio que problemas crônicos de saúde virão com tal consumo. Se nas cidades que tiveram queda nos níveis dos reservatórios houve aumento na incidência de viroses devido à péssima qualidade da água, quiçá onde se tomará a tal “água de esgoto”. Nisto, os prejudicados são os pobres que, não tendo água mineral, tomam a “torneiral”.

Há quem defenda que este tratamento do esgoto seja uma alternativa, um paliativo. Para mim, paliativo é construir termoelétrica enquanto se constrói hidroelétrica. Tomar “água de esgoto” é a clarividência de que faltou planejamento. Talvez, nunca imaginávamos tal situação. Fomos pródigos com as benesses da natureza que nos fez acomodar, o que não justifica aceitar soluções absurdas e desesperadoras.

Entendo que o mais elementar que um responsável pelo abastecimento de água tem que fazer é zelar pela qualidade e quantidade da mesma. Isto requer sempre o monitoramento e projeção da oferta e demanda, para que a água não venha faltar. Modelos hidrológicos e meteorológicos estão disponíveis. Sabendo do crescimento ilimitado da demanda é que se projetam novos barramentos e adutoras. No entanto, há tempos não se faz obras e, muito menos, dragagem dos reservatórios para ampliar a oferta. Ao revés, a seca que aflorou os assoreamentos nas barragens oportunizou que as dragassem, mas, provavelmente, na maioria das cidades isto foi desperdiçado.

No mínimo, as concessionárias de água e esgoto devem possuir uma equipe gestora competente e instrumentalizada para jamais deixar faltar água nas residências. Um gestor tem que ser habilidoso no planejamento em olhar para o futuro, baseado nas experiências passadas, para garantir o abastecimento independente de qualquer catástrofe.

Muitos governos resistem em alocar novos mananciais dado a dificuldade de desapropriação e indenização dos produtores rurais, seja por prejuízo político ou financeiro. Porém, criando uma APA (área de proteção ambiental) e elaborando um plano de manejo da bacia, em comum acordo com os produtores, é possível expandir, com pouco dispêndio, a oferta de água sem comprometer a produção agrícola.

A visão imediatista não permite enxergar a importância de se manter uma equipe responsável por gerir a bacia hidrográfica de modo a planejar e garantir o consumo das pessoas sem que as submeta ao ridículo de ter que beber “agua de esgoto”.

Muitos alegam que a culpa é da privatização do serviço de água e esgoto. Para mim, é incompetência mesmo, embora não deixe de ser frágil este tipo de serviço na iniciativa privada dado à tônica da constante redução de custos que pressionaria para demitir uma equipe de gestores de mananciais. Assim como a iniciativa privada não investe em uma base de dados para acompanhar a evolução da demanda para delinear projetos de expansão da oferta.

Óbvio que todo trabalho para expansão da oferta não exime os consumidores de serem responsáveis e racionais quanto ao consumo de água, mas este é um assunto a ser tratado em outro artigo. Por enquanto, ainda do lado da oferta, se os gestores querem evitar o imediatismo de combate à seca, remediado pelos caminhões-pipa, a saída é gerir a bacia hidrográfica. Se não sabem, contratem um “pica-pau” (Engenheiro Florestal).


Fonte: Sebastião Renato Valverde é professor de Engenharia Florestal na UFV (Universidade Federal de Viçosa)



Publicidade


Deixe seu comentário no espaço abaixo ou clique aqui e fale conosco.


Nome: Email (não aparecerá no site):




Comentário(s) (1)


José Hess disse:

01/12/2014 às 17:43

Pois é professor concordo plenamente contigo, faltou o dito planejamento que aliás no Brasil é uma palavra que não faz parte de nosso dicionário. Pois se houvesse um mínimo de planejamento não teríamos falta de leitos hospitalares, de escolas de estradas e de água lógico. É o famoso e "SE" faltar isso ou aquilo....
A população aumenta ano à ano fora os forasteiros que chegam todo o dia do Haiti, Bolivia, e de todos os países, alguém ou algum governo está planejando como será a demanda de leitos, escolas, água, esgoto, transporte e novas ruas e avenidas para daqui à 5 anos?

Mas um povo que vive assistindo as malditas novelas e os malditos jogos de futebol e canais de criminalidades vai se preocupar com estes assuntos tão sem importância e agora vem o Carnaval e o povão esquece que vive, nós merecemos a situação que vivemos.

Novidades do Site


Quer divulgar sua empresa ou está buscando uma empresa florestal?

Pensamento

A melhor maneira de realizar os seus sonhos é acordar.
Paul Valéry

Vídeo

Bureau de Inteligência

Análise Conjuntural
Editais
Produções Técnicas

Patentes
Cartilha Florestal
Legislação



Publicidade

Mercado

Cotações
Câmbio
Mapa Empresarial


Enquete

O que você acha da implantação do Cadastro Ambiental Rural (CAR)?

Trará benefícios aos produtores rurais
Trará benefícios ao meio ambiente
Trará benefícios apenas para o governo
Trará benefícios aos produtores rurais, ao meio ambiente e ao governo
Não muda a situação dos produtores rurais, nem do meio ambiente

Receba no seu email

Análise Conjuntural

Estudo e análise de especialista sobre o mercado de florestas.

Newsletter

Receba as novidades do setor de florestas no seu email.

Nuvem de Tags


2114 visitas nesta página

Polo de Excelência em Florestas

Parceiros

AMS  |   ECOTECA DIGITAL  |   EMBRAPA FLORESTAS  |   EPAMIG  |   FAEMG  |   INTERSIND  |   LARF  |   MAIS FLORESTAS  |   MAPA  |   SEAPA  |   SEBRAE  |   SECTES  |   SEDE  |   SEMAD  |   SIF  |   UFLA  |   UFV  |   UFVJM  |   UNIFEMM  |  

Colaboradores

ACELERADORA DE  |   AGROBASE  |   AGROMUNDO  |   APABOR  |   BRACELPA  |   CIENTEC  |   FAPEMIG  |   FINEP  |   IEF  |   LATEKS  |   PAINEL FLORESTAL  |   TRATALIPTO  |   UFV JR. FLORESTAL  |  
Desenvolvido por Ronnan del Rey