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04/02/2015

Vidas Secas e a Travessia Florestal ao Paranhão - Sebastião Renato Valverde

"e se o meu povo, que se chama pelo meu Nome, se humilhar, e orar, e buscar a minha face, e se desviar dos seus maus caminhos, então eu ouvirei do céu, e perdoarei os seus pecados, e sararei a sua terra." 2 Crônicas 7:14.

Sudeste brasileiro atravessa a maior seca de sua história.
O sudeste brasileiro agoniza com a mais drástica seca da sua história. Uma “bolha” de ar quente estacionada sobre ele tem impedido chuva nesta região que tem, há quase cinco anos, registrado quedas sucessivas nas precipitações abaixo da média anual. Em que pese algum histórico longínquo de seca no sudeste, provavelmente jamais ela tenha se agravado tanto quanto agora, haja vista o crescimento populacional e industrial.
Foi-se 2014 com poucas chuvas e atravessa-se janeiro de 2015 zerado. Isto, por si só, é um prenúncio de que a seca deste ano será mais drástica que a do ano passado. Uma catástrofe. Quando, em 2014, imaginava-se que nada poderia ser tão ruim do que já estava. Pois bem, inicia-se 2015 seco, quente e sem previsões de chuvas. Pior que um ano de baixa pluviosidade é o déficit hídrico acumulado dos anos anteriores. Caos sobre caos.
Resultado disso não poderia ser diferente do que apontam diariamente os noticiários: mananciais e cursos d´água secando, racionamentos constantes de água e energia, entre outras calamidades comentadas em “Caçador de Pipa e de Pica-Pau”.
Mesmo após a passagem desta onda de calor provocada pelo El Niño, com uma possível vinda de um La Niña trazendo vários dilúvios, dissolverá a lembrança desta agonia, pois o estrago está feito. Se considerar que a região Sudeste representa mais da metade do PIB e que boa parte da matriz industrial é, direta e indiretamente, intensiva no uso de água, espera-se transferências regionais significativas no PIB brasileiro.
Por sorte não teve ainda o fatídico apagão elétrico - apenas quedas por falhas operacionais e por excesso de demanda nos horários de pico -, haja vista a integração do sistema elétrico nacional e as termoelétricas a combustíveis fósseis que nos alimentam com seus gases (SO, NO, CO e CO2). Do contrário, o Sudeste estaria nas trevas.
Sendo a água vital para a humanidade, seja para consumo doméstico e dessedentação, ou quer seja, para uso industrial, geração de energia, transporte, lazer, agrícola, etc., sua falta traz consequências colossais para a sociedade. O racionamento está impondo, felizmente, uma cultura de uso consciente da água. Entretanto, mesmo sob conscientização, o fato é que não mais haverá água disponível para todos os fins. Sendo assim, até por prioridades naturais e impostas pela Política Nacional de Recursos Hídricos (PNRH), as indústrias do sudeste são e serão penalizadas.
Muitas delas terão que se ajustar via mudanças no processo produtivo adotando tecnologias menos intensivas ou mais eficientes no consumo de água. Ao revés, terão que fechar as portas e, ou, migrar para outras regiões. Com exceção das indústrias hi tech como de eletrônicos, de químicas finas e tecnológicas, praticamente todos os demais segmentos da matriz produtiva terão a sua competitividade comprometida com esta seca. A agricultura e a indústria dependem da captação de água para irrigação, para o processamento industrial e para a produção de energia térmica. Indiretamente, elas também dependem da água via eletricidade gerada nas hidroelétricas.
A produtividade agrícola e florestal está intimamente relacionada com a disponibilidade de água no solo. A produção de celulose, papel, painéis de madeira, borracha e de quaisquer produtos do agronegócio e das indústrias químicas, veículos, metalúrgica e mineração consomem volumes expressivos de água.
Considerando apenas o setor florestal do Sudeste e não entrando no mérito das demais indústrias da matriz econômica, este El Niño tem impactado duplamente este setor. Primeiro, devido ao déficit hídrico do solo implicando menor produtividade florestal, e segundo, pela menor oferta de água para a produção industrial, principalmente de celulose e painéis de madeira. Obviamente, a baixa produtividade florestal acarretará em prejuízos para a produção do carvão vegetal que comprometerá a metal-siderurgia.
Os plantios florestais dos últimos anos serão menos produtivos e o produto ficará mais caro. No caso da siderurgia a carvão vegetal, por mais que esta não dependa tanto de água, ela sofrerá com a menor oferta de carvão. Outro setor que também não é intensivo em uso da água, mas que está pagando um “preço salgado” pelo El Niño é o de metalurgia a carvão vegetal. As indústrias de ferro-ligas e de silício metálico, por serem “eletro-intensivas” estão sendo fortemente prejudicadas pelo aumento na tarifa da energia elétrica. Muitas destas indústrias só funcionarão até o fim do contrato de fornecimento de eletricidade, podendo só retornar quando as chuvas voltarem e encherem os reservatórios a ponto de reduzir os preços da energia a níveis competitivos. Ou seja, sabe-se lá quando!
As indústrias de painéis de madeira sofrerão assim como as de celulose, porém não o suficiente para ter que migrar do sudeste. É óbvio que o setor florestal gostaria de ir ou estar em uma região em que não houvesse déficit hídrico. No entanto, isto é privilégio apenas para as indústrias de celulose e painéis, em que a madeira é a sua principal e indispensável matéria-prima. No caso das indústrias consumidoras de carvão vegetal, que dependem mais da disponibilidade do mineral e de energia elétrica, tal migração é mais complicada. Por sorte, o carvão passeia de caminhão a distâncias maiores que a madeira.
Especificamente, a falta de chuva agrava mais as indústrias de celulose. Embora o progresso tecnológico tenha tornado estas indústrias mais eficientes, reduzindo de 100 para 25 m3 de água por tonelada de celulose, elas ainda são “hidro-intensivas” e com produção em escala. Qualquer fábrica de celulose “nasce” produzindo 1,5 milhões de ton.ano e prevendo a duplicação. Se falta água para consumo humano, quiçá, industrial.
Desta forma, acredita-se que os novos projetos de celulose terão que mirar regiões a partir do paralelo 44 (Amazônia Legal). Assim, se beneficiarão o “Paranhão”. Se a Agricultura tem o “Mapitoba”, a Floresta tem o “Paranhão” (Pará e Maranhão, neologismo que alguém desocupado inventa). Sobretudo o Maranhão, após a sua democratização com a queda da dinastia “Sarneisista”, que se transformará no próximo eldorado florestal, destronando o Mato Grosso do Sul, pela menor ocorrência de seca.
O “Paranhão” apresenta fortes vocações florestais em virtude das suas condições edafoclimáticas, topografia, disponibilidade de áreas extensas e contíguas e a sua logística. Este polígono, que integra o sul do Pará e oeste do Maranhão, é favorecido por ferrovias e o porto de Itaqui, além da maior proximidade para exportação que as demais regiões do País. Os maiores problemas nestes estados referem-se, por enquanto, às questões fundiárias e aos excessos burocráticos e fraudulentos.
Reza o ditado que quem chega primeiro na fonte bebe água limpa. Neste sentido, me redimo de quando, numa matéria em 2008, critiquei uma empresa – a mesma que recentemente instalou-se no Maranhão - que, com certa indisciplina financeira, aventurou-se, “kamikazemente”, a implantar-se no Piauí. Todo o respeito aos piauienses, mas, infelizmente, o estado não apresenta as condições aptas para este tipo de indústria.
Com o crescimento do setor florestal a partir do paralelo 44 – onde as plantações podem morrer de doenças, dada a alta umidade, mas não de sede -, o Brasil terá uma de suas desigualdades sendo equalizada pelas mudanças climáticas. Já que sucessivos governos não deram conta deste recado, que dê, então, a loucura do clima.
Se já não bastassem meus textos comentando sobre a realidade florestal, o leitor agora terá que tolerar meus presságios sobre o futuro reservado para a silvicultura. Espero que quando vier a próxima matéria esteja chovendo bastante, porque está duro suportar esta sauna no Sudeste. Que venham dilúvios, mas moderados!



Fonte: Fonte: www.celuloseonline.com.br



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