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24/04/2014

Raimundas e a Perpetuação do Machismo Florestal

Ó beleza! Onde está tua verdade? (William Shakespeare)

Imagem: Google
Modéstia à parte, a atividade florestal é a mais complexa de todas. Dupla procedência da madeira – nativa e plantada -; “n” produtos para “m” destinações; diferentes regimes de manejo e rotação; longo prazo; serviços ambientais à medida que se produz; dentre outras condições que requerem extrema habilidade do gestor para otimizar a sustentabilidade de um projeto florestal. Esbarra-se, ainda, com a complexidade da escolha do material genético para se plantar: Quais clones? Quais espécies? E, em que pese a evolução no melhoramento florestal, alguns ainda questionam se plantam mudas seminais ou clonadas, mesmo sabendo que floresta clonal é mais funcional e produtiva do que a de sementes (até que se garanta a produção de sementes melhoradas que compitam com a clonagem).
Embora indubitável seja a supremacia da muda de clone sobre a de semente no plantio, o mesmo não se pode afirmar no momento da compra de uma floresta, sobretudo quando voltada para a produção de carvão vegetal direcionado a mercados que pagam pelo peso e não pelo volume. Coisas do gênero que nutrem a misteriosa binária florestal entre leve e pesado, grosso e fino, bela e feia.
A despeito da rápida evolução da clonagem do eucalipto, triplicando a produtividade volumétrica em detrimento da massa de madeira – e, mesmo tendo tratado isto no texto “Tamanho não é Documento ‘Florestal’”-, acaba sendo instigante, por pressão de alguns orientados que me retrucam – discordam, mas não me convencem – voltar ao tema.
Ora, o que se vê é que houve a disseminação de extensas plantações florestais frondosas e vistosas, porém de madeira leve, dissociadas das exigências industriais, principalmente da metalurgia e siderurgia, que requerem madeira e carvão mais densos para serem competitivas. As indústrias, que deveriam ditar o rumo da prosa, sofrem por terem que consumir carvão leve imposto, unilateralmente, pela área florestal. Não que seja contra a forma como houve a clonagem, pois não se teria o setor florestal e o segmento de celulose mais competitivos do mundo.
Ocorre que tudo leva a crer que as práticas silviculturais estão numa encruzilhada e seguindo o caminho do abismo quando se quer madeira para fins energéticos. Se o bom para energia ou para carbonização é madeira com diâmetro entre 10 e 15 cm e de maior densidade, então não faz sentido espaçamentos amplos. Assim, há que se repensar as práticas silviculturais, adubação, espaçamento e idade ótima de corte num cenário diferente do que fora pensado desde a década de 1980.
Alguns acham que contornar isto é só comparar os clones pela massa produzida por hectare. Não é bem por ai. Na área florestal não tem espaço para colocações simplórias. Não basta multiplicar a densidade pelo IMA e comparar a massa obtida. Ledo engano. Por exemplo, o que adianta um clone de alto rendimento volumétrico que resulte numa grande massa por hectare, mas que produza um carvão leve? O mais importante é definir qual a melhor – e possível – densidade apta a resultar num carvão que proporcione maior competitividade industrial.
Também não se resolve pagando apenas pelo peso do carvão. Lógico que isto é necessário e vai provocar mudanças, mas não o suficiente. As empresas têm que priorizar a compra de um carvão com densidade acima do break even point e que, de fato, seja capaz de torná-las mais competitivas, eficientes e com isso, remunerar melhor o produtor que produzir o carvão de maior densidade na indústria.
O problema é que se criou uma cultura ligada à imagem de uma floresta clonal majestosa, fruto da evolução das práticas silviculturais, da qual ninguém abriria mão, pois, também, com ela veio o benefício de se ficar menos dependente de mão-de-obra e das questões trabalhistas, visto que trabalhador ficou escasso, caro e complexo de gerenciar.
À medida que as árvores ganharam expressivas dimensões, principalmente em diâmetro, acabou havendo, também, a possibilidade de ampliar o espaçamento de plantio a ponto de diminuir a densidade de 2500 árvores por hectare para 833, sem perda de volume, implicando numa redução significativa nos custos por metro cúbico de madeira produzida (R$/m3). Isto fez poupar trabalho, haja vista a redução expressiva no número de covas, na adubação por planta, etc. Por outro lado, este espaçamento favoreceu a mato-competição e exigindo mais capina e, ou, uma super dose de adubação de arranque para diminuir a luminosidade no plantio e reduzir os tratos culturais.
A partir do momento que se preconiza que o ideal para fins energéticos é madeira fina e densa, eis um conflito cultural com a clonagem tradicional. A questão é: quem vai defender uma plantação florestal não tão frondosa e adensada, quando se acostumou a ver lindas plantações de árvores clonadas gigantes, feito sequoias, de alta produtividade volumétrica? Árvores que parecem um He-Man anabolizado: muito grito e pouca força.
Não se quer aqui defender plantios seminais como solução. Nem céu e nem terra, mas floresta. Não significa defender que teria que substituir lindas plantações por “piçarras”. Óbvio que a clonagem não significa apenas a beleza da floresta. Indiscutível o ganho operacional com ela. A questão não é decidir entre a bela e a desprovida.  
Criou-se uma cultura de plantações voltadas para volumetria, ignorando-se a gravimetria, que dificilmente conseguir-se-á fugir dela. Parece que, tal como no mundo animal, também no florestal ninguém quer ser pai de filho feio. Nenhum profissional quer seu nome atrelado com um plantio chocho.  
É o dilema florestal. O floresteiro vive na dúvida: não sabe se casa com a Patricinha, linda, vistosa, mas burra e falante ou com a nadadora (nada de frente, nada de costa, nada de peito, nada de nada) desprovida de beleza, dura, porém inteligente e muda. Quem sabe o melhor seja ele casar com a Raimunda, feia de cara, mas boa de “dotes”? É possível sim identificar clones ou espécies que tenham menor IMA, mas que possuam altas densidades e que produzam madeira e carvão compatíveis com o que, de fato, necessitem as empresas. Mudanças à vista nas práticas silviculturais. Há quem acredita nos futuros clones de Corymbia spp. É pagar para ver!

Por Sebastião Renato Valverde, professor do Departamento de Engenharia Florestal da UFV.


Fonte: Celulose Online



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