Facebook Twitter RSS

Notícia

Versão para impressão
A-
A+


02/05/2017

Manejo para integrar as bacias hidrográficas



Desde que o homem apareceu no planeta Terra, presumivelmente fruto da evolução das espécies, que ele se relaciona com os recursos naturais há milhares de anos ou milhões de anos, entre os quais o solo, a fauna, flora, os mares, oceanos, climas e com o ciclo hidrológico. Entretanto, a questão ambiental emerge mais emblemática na sua complexidade e desenha um século XXI mais atento à sustentabilidade e até exorcizando as teses recentes sobre um fim presumível por consequência da ação humana nos domínios das riquezas naturais desse planeta, com suas singularidades e desafios.
É e será um debate aquecido, controverso e global colocado à mesa, não apenas de cientistas e pesquisadores, que se fundamenta em cenários e onde não se podem estabelecer um reduzido espaço de tempo para consensos numa geografia que abrange o mundo e também envolve as economias, os concorrentes, poderes, as histórias, culturas, os hábitos, costumes, e até as crenças milenares ligadas à natureza. Os EUA são atualmente uma amostra dessas divergências globalizantes e não mais sistematicamente alinhadas com os protocolos internacionais pactuados e assinados.
Entretanto, o Brasil ainda conserva 67,0% da sua cobertura original, embora concentrados na bacia Amazônica brasileira, lembrando que da Mata Atlântica sobraram apenas 12,0% ou menos. Registre-se que na safra agrícola 2016/17 foram cultivados apenas 7,06% do território brasileiro.
Ora, se esse planeta não abrigasse hoje 7,3 bilhões de habitantes e consumidores de tecnologias, produtos, serviços, com previsão de 9,3 bilhões em 2050, por certo, esses temas seriam menos apaixonantes, secundários, mas o impacto zero nas paisagens naturais carece de qualquer fundamento científico, pois as intervenções humanas acarretam pressões hercúleas sobre os recursos naturais e são relações diretas de causas e efeitos, sinérgicas.
Sob a perspectiva agro econômica e segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e a Alimentação (ONU/FAO), estima-se que anualmente haja uma perda de solos agrícolas entre 25 e 45 bilhões de toneladas não apenas por decorrência de fatores climáticos, mas também pelo uso intensivo do solo e ausência de boas práticas conservacionistas geradas pela pesquisa agropecuária e florestal. O esgotamento do solo sinaliza pesados investimentos e nem sempre poderá haver viabilidade econômica no recuperar esses passivos ambientais.
Além disso, pesquisa desenvolvida pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal) via satélite, 2013, revelou que o fenômeno da desertificação, em seus vários estágios, atingia no Nordeste, à época, 230 mil km2, o equivalente a 697 vezes o tamanho do município de Belo Horizonte, sendo, portanto, um processo de ampla magnitude geográfica, multifuncional e multidisciplinar a exigir troca de saberes, inovações tecnológicas e providências.
Em Minas Gerais, ainda segundo essa pesquisa, a área de desertificação de maior risco, num elenco de estágios diferenciados, abrange 69 mil km2 em 59 municípios no Norte de Minas, Jequitinhonha e Mucuri. Essa área é 21,3 vezes maior que a do município de Teófilo Otoni, com seus 3.243 km2. A formação do solo agrícola, que decorre da desagregação da rocha-matriz que lhe dá origem, pode levar séculos e a erosão laminar e profunda pode exauri-lo em poucas décadas. Porém, a desertificação não é apenas uma questão climática, isolada.
Além disso e nessa panorâmica, a agricultura irrigada, com até três colheitas numa mesma área cultivada ao longo do ano, exige que se adote tecnologia de ponta, reservar a água, reduzir os desperdícios desse elemento vital, estratégico, insubstituível e indispensável às economias e à vida humana, animal e vegetal. A natureza não acolhe distrato, e sim pactua contratos de sustentabilidade, que exigem muitas parcerias entre os atores públicos, que passam pela ciência e tecnologia, empresários do agronegócio, consumidores, e fundamentadas em políticas públicas sustentáveis legitimadas pelas sociedades e às quais os governos devem servir.
Minas tem um potencial de 2 milhões de hectares irrigáveis e usa apenas 600 mil, segundo o Plano Diretor de Agricultura Irrigada de Minas Gerais (PAI-MG). O Jaíba, no semiárido mineiro, exporta frutas para a Europa, apenas um exemplo, pois o perfil de produção abriga outras culturas irrigadas. Os produtores devem ser pagos também por serviços ambientais prestados, pois eles se refletem não apenas na sustentabilidade dos recursos naturais em níveis de estabelecimentos rurais, como também contribuem à qualidade vida de 85,0% dos mineiros e brasileiros, que vivem nas cidades e regiões metropolitanas. A cidade e o campo são faces de uma mesma moeda.
Por outro lado, convergente, há um vasto elenco de inovações e processos aplicáveis às paisagens rurais e urbanas, bem como disponíveis ferramentas de última geração através do geoprocessamento e o georreferenciamento no planejar, levantar ecossistemas, gerir e não somente em níveis de estabelecimentos rurais, que somam 5,2 milhões no Brasil e dos quais 551.617 estão contidos no território mineiro e ao que se acrescenta o acesso contínuo às tecnologias de informação para decidir como conduzir os negócios agropecuários e os sistemas florestais.
Entre outras metodologias associativas e compartilhadas, o manejo integrado de bacias hidrográficas é um processo pactuado, cujos resultados devem aumentar a oferta de água para múltiplos usos, reduzir os custos de produção, conservar o solo, proteger a biodiversidade, perenizar as malhas hídricas, aproveitar as chuvas, escassas ou abundantes,  dessedentar os rebanhos de pequenos e grandes animais, e evitar um volume crescente de solo erodido nas calhas dos córregos, riachos e rios, uma liminar causa de enchentes e redução de vazões hídricas.
E mais, recarregar os aquíferos e as nascentes, controlar as perdas de fertilizantes, sementes e matéria orgânica, locar e adequar as estradas vicinais, onde houver, abastecer os reservatórios, reduzir a erosão laminar e profunda, amenizar as enchentes, estimular o turismo rural, ecológico e elevar a eficácia de proteção às pessoas, lavouras, dos patrimônios, rebanhos, da cobertura vegetal e ainda preservar as áreas legais estabelecidas por Lei. Não se devem subestimar os esforços dos empreendedores rurais à busca de convivência mais harmônica com a natureza nas artes de plantar, incluídos os sistemas florestais, e criar.
Segundo o engenheiro agrônomo Maurício Fernandes (Mestre em Ciência do Solo), a carência de águas decorre, basicamente, do desequilíbrio do ciclo hidrológico, com predominância de escoamento superficial e evaporação das águas, que pode ser minimizada com a adoção de tecnologias simples de manejo integrado nos domínios das bacias hidrográficas.
Segundo a FAO/Embrapa (2015), 33,0% dos solos agrícolas do mundo estão degradados e outras fontes estimam que, no Brasil, se perdem entre 500 e 600 milhões de toneladas de solos cultivados por ano. A erosão resulta de um cenário complexo, mas o impacto direto da chuva no solo a descoberto é uma das causas mais severas dos processos erosivos. Mas o que é importante é o conceito moderno de balanço ambiental positivo via adoção de inovações nos circuitos do agronegócio e nos sistemas de base florestal.
Existem ainda, no foco das bacias hidrográficas, aquelas que devem ser compartilhadas entre os estados, países, e que poderiam também passar por conflitos para assegurar os usos múltiplos dos respectivos recursos hídricos. É o caso do rio São Francisco, que nasce em Minas Gerais, e passa pelos Estados da Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas, e do rio Mississipi (EUA), que banha dez estados e haja gestão eficiente da água.
E mais, a bacia hidrográfica do rio da Prata abrange o Brasil, Uruguai, Paraguai, a Bolívia e Argentina, portanto, ela é multinacional. A do rio Doce reúne Minas Gerais e o Espírito Santo, entre outras dezenas de exemplos ao redor do Brasil e do Mundo. Integrar as bacias hidrográficas sustentáveis é uma obra hercúlea, exige volumosos investimentos públicos, privados, e muita ciência e tecnologia.
Há que se ter sempre uma atenção qualificada com as paisagens rurais, à medida em que elas são a base física da produção de alimentos, agro energia, biomassa, produtos florestais e as substantivas áreas coletoras de chuvas. Noutro foco, a agricultura e as florestas são receptoras de bilhões de toneladas de CO2, gás de efeito estufa, mas essencial à fotossíntese e aos sistemas agroalimentares e florestais, também verdadeiras “fábricas” de matéria orgânica se houver manejo e correto uso do solo e da cobertura vegetal.
O agronegócio brasileiro, que se firmou depois da metade da década de 1970 e o setor de base florestal, no conjunto, têm presença reconhecida nos mercados internacionais, mas ainda há muito o que fazer numa perspectiva de tempo. Ao longo dos últimos 20 anos, o PIB do agronegócio brasileiro cresceu 93%, enquanto o PIB nacional avançou 62%, o da indústria 32%, e os serviços 70% (Grupo Cultivar).
Nota adicional
Embora não se possa isolar nenhum cenário na economia agropecuária, incluindo-se o texto acima, é oportuno registrar que os pesquisadores Otavio Balsadi e Eduardo Del Grossi, no artigo publicado na Revista de Política Agrícola (Ano XXV – Nº 4) “Trabalho e emprego na agricultura brasileira – Um olhar para o período 2004-2014,” revelam que nesse período quase 3,6 milhões de pessoas deixaram o campo em função das relações entre as mudanças na estrutura e composição da produção agropecuária, com a introdução de inovações tecnológicas e organizacionais, e a demanda da força de trabalho. Evidentemente que esse artigo científico é muito mais denso e completo do que apenas uma pequena nota como essa.


Fonte: Benjamin Salles Duarte - Engenheiro Agrônomo



Publicidade


Deixe seu comentário no espaço abaixo ou clique aqui e fale conosco.


Nome: Email (não aparecerá no site):




Comentário(s) (0)


CIFlorestas disse:

20/09/2017 às 04:28

Nenhum comentário enviado até o momento.

Novidades do Site


Quer divulgar sua empresa ou está buscando uma empresa florestal?

Pensamento

A melhor maneira de realizar os seus sonhos é acordar.
Paul Valéry

Vídeo

Bureau de Inteligência

Análise Conjuntural
Editais
Produções Técnicas

Patentes
Cartilha Florestal
Legislação



Publicidade

Mercado

Cotações
Câmbio
Mapa Empresarial


Enquete

Do ponto de vista técnico e operacional, qual é a melhor unidade para comercialização da madeira para celulose?

volume de madeira sólida (metro cúbico)
tonelada de madeira
metro estéreo ou metro de lenha
unidade ou peças de madeira

Receba no seu email

Análise Conjuntural

Estudo e análise de especialista sobre o mercado de florestas.

Newsletter

Receba as novidades do setor de florestas no seu email.

586 visitas nesta página

Polo de Excelência em Florestas

Parceiros

AMS  |   ECOTECA DIGITAL  |   EMBRAPA FLORESTAS  |   EPAMIG  |   FAEMG  |   INTERSIND  |   LARF  |   MAIS FLORESTAS  |   MAPA  |   SEAPA  |   SEBRAE  |   SECTES  |   SEDE  |   SEMAD  |   SIF  |   UFLA  |   UFV  |   UFVJM  |   UNIFEMM  |  

Colaboradores

ACELERADORA DE  |   AGROBASE  |   AGROMUNDO  |   APABOR  |   BRACELPA  |   CIENTEC  |   FAPEMIG  |   FINEP  |   IEF  |   LATEKS  |   PAINEL FLORESTAL  |   TRATALIPTO  |   UFV JR. FLORESTAL  |  
Desenvolvido por Ronnan del Rey