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14/06/2010

Meio Ambiente na Imprensa Hoje

Foi um fim de semana ensolarado em Bonn, terra natal de Beethoven e a anódina capital da Alemanha naqueles tempos de Muro. A cidade continua com alma de aldeia, apesar do esforço em fingir que não, mas seria injusto dizer que é desprovida de charme.

Foi um fim de semana ensolarado em Bonn, terra natal de Beethoven e a anódina capital da Alemanha naqueles tempos de Muro. A cidade continua com alma de aldeia, apesar do esforço em fingir que não, mas seria injusto dizer que é desprovida de charme. Costuma ser invadida por bandos heterogêneos de gente de terno, turbante ou enrolada em tecidos coloridos, que falam inglês e se dirigem ao hotel Maritim, um quatro estrelas no sul da cidade. Bonn é a sede da ONU na Alemanha, com duas dezenas de órgãos. O mais estelar é o secretariado da Convenção-Quadro sobre Mudanças do Clima, a UNFCCC, que os críticos consideram fragilizada e falida. Fragilizada, pode ser. Mas é um grande engano desejar que esteja falida.

Bandeiras do mundo todo espetadas perto do Maritim montam a cena. Nesses dias, de novo, delegações de 180 países lotam salas de conferência do hotel, tentam avançar no dificílimo acordo do clima e se livrar da ressaca da CoP-15, a Conferência de Copenhague, há seis meses. Diplomatas podem discutir linha por linha um texto de 42 páginas, intransponível para não iniciados. É uma leitura interrompida por quem pede parênteses em trechos onde discorda. Pode ser porque há um "se" no lugar de um "como". No final, os avanços serão pequenos. Mas o processo continua e ruma à CoP-16, no fim do ano, no México.

É um sistema exasperante, vagaroso e caro. Nem de longe acompanha a urgência de mudanças indicada pela ciência. Pior: neste foro, as decisões são tomadas por consenso – o que significa que por trás da objeção do "se" pode estar, por exemplo, o temor da Arábia Saudita de um mundo onde o petróleo será banido e o país quer ser compensado. Ou da Costa Rica, que preserva florestas e pretende garantir valor ao esforço. Ou das Maldivas, um paraíso na Terra condenado a submergir com o avanço do mar, que espera que as nações que emitem mais gases-estufa façam cortes drásticos. Aqui a regra é tudo ou nada. Por mais bizarro que pareça, é assim que tem que ser.

Com todas as falhas, este é o sistema mais democrático para tomar decisões complexas em conjunto. Tem que ser criticado, melhorado e fortalecido. A pior hipótese é sua implosão. Não ter rapidamente um acordo climático internacional significa lançar o mundo no pior quadro das projeções científicas, aquele onde os mares se levantam, as florestas secam e os conflitos são por água e comida. A busca por consenso é pouco pragmática, é verdade. Mas é assim que se garante que o povo de Tuvalu seja ouvido ou se impede que definam o destino da Amazônia sem que os brasileiros estejam de acordo.

Defender que os grandes emissores resolvam a questão em foros paralelos é argumento elitista. EUA, China, Indonésia, Brasil, Rússia, Índia, Alemanha, Japão, Malásia e Canadá respondem por 60% do problema. "Mas as vítimas estão em todos os países e o maior impacto será sentido pelas pequenas ilhas e nações mais pobres, que não participam das reuniões dos grandes", lembra Mark Lutes, do WWF. Bobagem pensar que Tuvalu trava o processo ? pode interromper por algumas horas e é só. Quem bloqueia são os EUA, o Japão, a União Europeia, o Canadá, a Rússia, a China, a Índia, o Brasil. Granada não trava nada.

Os grupos da nova geopolítica do clima, explicitada em Copenhague, reúnem-se constantemente e em separado, para dimensionar diferenças e traçar estratégias antes de qualquer CoP, a rodada anual prevista na Convenção. É assim que se constrói convergência. As grandes economias têm o G-8, o G-20 e o MEF, os emergentes se encontram também no Basic, os países africanos têm seu fórum e assim vai. Há dez dias, por exemplo, uma reunião na Noruega agrupou países que têm floresta e países e que têm dinheiro para protegê-las. A iniciativa reúne 50 nações e a ideia é que a experiência seja referendada na Convenção quando o tratado estiver para sair. Afinal, quem contabilizará a emissão evitada pelo projeto de uma ONG num Estado do Brasil onde o desmatamento tiver sido impedido? "O Brasil, que hoje tem metas, ou o país que doou o dinheiro?", questiona Marcio Santilli, um dos coordenadores do ISA, a ONG que defende povos indígenas no Brasil. Só um tratado global pode ajeitar a bagunça.

Esta trilha de reuniões em pequenos grupos e negociações travadas não é exclusividade climática. A Rodada Doha já tem nove anos e na OMC também não se decide por votação. "É difícil negociar entre 150 países? Sem dúvida", pondera Assis Moreira, correspondente do Valor em Genebra e especialista nesta seara. "Mas a negociação não avança não é por haver 150 países. É porque os interesses são divergentes e porque os EUA estão hoje num recuo enorme, temendo o doloroso declínio de sua economia."

Deprimente em 19 de dezembro, em Copenhague, era constatar que de lá não sairia nada de muito ambicioso e ter que escutar as comemorações do fracasso. "Eu não disse que isso não funciona?", diziam, pelos corredores, egos gigantes de analistas. O processo que tenta dar ética, economia e solidariedade à vida aquecida na Terra é um celeiro de dificuldades. Países em desenvolvimento, que veneram o princípio das responsabilidades "comuns, porém diferenciadas" da Convenção, fazem disso um escudo para evitar movimentos. Os ricos não aumentam o corte de emissões e insinuam reduzir a promessa de colocar na mesa US$ 100 bilhões ao ano, até 2020, se a crise econômica continuar. O clima não precisa de mais sabotagem.
 


Fonte: Estado de São Paulo



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