Facebook Twitter RSS

Notícia

Versão para impressão
A-
A+


31/03/2016

Nova norma ISO indica critérios de padronização para geração e comercialização de bioenergia com enfoque em sustentabilidade

Foto Ilustrativa - BioenNW
No final de setembro último, a Organização de Padronização Internacional (International Organization for Standardization – ISO) publicou uma nova norma que determina critérios de sustentabilidade para a bioenergia. Na prática, a ISO 13065:2015 tem o intuito de avaliar a sustentabilidade de produtos e processos relacionados à geração de energia de origem orgânica, promovendo a segurança energética e contribuindo para o desenvolvimento sustentável.
De acordo com Reinaldo Dias, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie (Campus Campinas), doutor em Ciências Sociais, mestre em Ciência Política e especialista em Ciências Ambientais, a norma deverá contribuir decisivamente para a padronização de procedimentos, a partir do estabelecimento de limites práticos que considerem aspectos ambientais, sociais e econômicos. Isso facilitará a avaliação e a comparação da produção de bioenergia, envolvendo também a cadeia de abastecimento e as aplicações decorrentes de sua utilização.
Vale ressaltar que o Brasil é um dos países mais promissores no que diz respeito à geração de energia a partir de matéria orgânica. O País tem enorme potencial nas diversas formas da bioenergia, seja no estado líquido, sólido ou gasoso. Em termos de combustíveis líquidos, o etanol e o biodiesel destacam-se como exemplos.
A biomassa sólida, como restos de matéria orgânica, madeira e bagaço de cana, é abundante e ainda pouco explorada. O biogás é obtido pela decomposição da matéria orgânica na ausência do oxigênio, gerando gás metano que pode ser utilizado para o aquecimento e produção de eletricidade. Além de sua utilização como ferramenta eficaz de luta contra as mudanças climáticas, a bioenergia deverá contribuir para o desenvolvimento rural, disseminando o uso de biomassa para produção de energia por diversas comunidades e promovendo a transição para uma economia verde baseada em fontes de energia renováveis.
Na visão de Dias, a ISO 13065 tem uma ampla aplicação em todas as formas de bioenergia, independentemente da matéria-prima utilizada, da localização geográfica, da tecnologia empregada ou da utilização final. A expectativa é que o novo padrão possa ser útil, tanto para produtores quanto compradores de bioenergia, facilitando a comparação de padrões de sustentabilidade e tornando-os mais transparentes. “Provavelmente a nova norma irá influenciar agências governamentais e provocará o surgimento de legislação e certificação específicas, servindo como uma fonte de informação sobre sustentabilidade bioenergética e base para o aperfeiçoamento da regulação ambiental.
Em resumo, a nova norma é uma contribuição essencial para a construção e consolidação da perspectiva do desenvolvimento sustentável, particularmente no âmbito empresarial, somando-se a outros padrões já existentes que vão na mesma direção, como a ISO 14001, de gestão ambiental, e a ISO 26000 que estabelece diretrizes para responsabilidade social”, sublinha ele, que dá mais detalhes na entrevista a seguir.
Quais motivos levaram ao surgimento desta nova norma ISO e quais são os propósitos almejados?
Reinaldo Dias, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie (Campus Campinas), doutor em Reinaldo DiasCiências Sociais, mestre em Ciência Política e especialista em Ciências Ambientais – Em termos globais, a bioenergia já vem sendo usada por diversos países. Todo país, sem nenhuma exceção, tem condições de aproveitar a biomassa, mas há diversas diferenças, já que existem diferentes manifestações de produtos orgânicos e cada situação situação tem uma abordagem própria. A União Europeia, por exemplo, utiliza a bioenergia a partir do óleo de palma, muito explorado na região asiática. O que ocorre, contudo, é que florestas são derrubadas para plantação da palma e isso tem causado uma série de problemas ambientais, prejudicando a macro fauna da região. Mesmo com estes aspectos negativos e contraditórios, a bioenergia é vista na União Europeia como um produto sustentável.
Atualmente, a União Europeia está expandindo a plantação de palma na África, priorizando um material que é sustentável, mas agredindo o meio ambiente de outra forma – e essa, muitas vezes, de maneira irreversível. Então, há de se considerar que a exploração da biomassa em termos globais tem diversas interpretações. O objetivo maior da ISO 13065 é padronizar e listar critérios para que sejam adotados por todos os países e todas as empresas, tanto do ponto de vista da produção quanto da comercialização.
Quais mudanças ela deverá trazer ao mercado de energia brasileiro?
Dias – O Brasil é um país com bastante diversidade em termos de material orgânico, variando de acordo com a região em questão, além de contemplar várias situações no que diz respeito a biomassa. Do ponto de vista comercial, há uma forte tendência de padronizar as fontes de material orgânico com plantação de florestas mais homogêneas. Contudo, sob o enfoque da sustentabilidade, da mesma forma que acontece na União Europeia, o uso de determinados materiais renováveis pode acarretar outros problemas para o meio ambiente. A padronização sugerida pela norma, portanto, vai ao encontro das necessidades do País, não somente das demandas das empresas. O álcool aparece entre esses exemplos. Ao mesmo tempo que temos condições de nos tornar líder em termos globais, a plantação de cana é feita de maneira não ambientalmente correta em muitas situações. É importante ponderar que existem casos concretos de condutas ideais, como exemplos de usina na região de Sertãozinho (SP) que mescla espaços de produção com mata nativa e tem presenciado a volta da macro fauna em algumas plantações de cana. O fato é que temos diversas situações no Brasil. Com a proposta de padronização, a norma será uma espécie de farol orientador para os empresários de diferentes segmentos.
A norma também deverá apontar adaptações aos setores que já usam energia verde de forma ambientalmente correta, como a indústria de celulose e papel?
Dias – Grande parte das plantações de eucalipto destinadas à produção de celulose e papel é certificada pelo FSC (Forestry Stewardship Council). Mas o tipo de padronização propiciada pelo FSC também terá de se adaptar a essas normas mais recentes que abrangem toda a cadeia de valor. Acredito que essa adaptação entre as certificações é muito positiva. As empresas que já têm a certificação FSC, por exemplo, tendem a se adaptar com muito mais facilidade aos requisitos da nova norma, porém, é preciso, antes de tudo, entender que vários outros aspectos propostos pela norma devem ser considerados, incluindo a preocupação com a comunidade do entorno e os aspectos sociais envolvidos na prática industrial. Um destes exemplos encontra-se no anexo B da norma, que dá um destaque específico ao trabalho infantil, fazendo referência a um texto da ISO 26000. Outros anexos abordam o uso da água, do solo e do ar, entre outros. Isso mostra que não se trata apenas das questões ambientais, mas sim da sustentabilidade como um todo.
Diante da publicação recente, o que o senhor aconselharia a tais empresas?
Dias – Embora seja nova e ainda não tenha sido traduzida para o Português, a norma já está disponível no site da ABNT, que representa a ISO no Brasil (http://www.abnt.org.br/), ao custo de R$ 809,90. Oriento as empresas a já procurarem por ela, primeiramente, porque não há dificuldade em adaptação às exigências listadas. É, pelo contrário, uma forma de contemplar uma padronização, por meio do estabelecimento de padrões, na tentativa de homogeneizar procedimentos para que haja uma linguagem comum em termos globais. A União Europeia não pode, por exemplo, achar que está utilizando um produto positivo para o meio ambiente, enquanto em determinada região o mesmo produto acaba o prejudicando.
Essa padronização é extremamente necessária. Do meu ponto de vista, portanto, o conselho mais apropriado para as empresas que almejam se antecipar em termos de competitividade, especialmente aquelas focadas em exportação, é que acessem as páginas que descrevem a norma o mais breve possível e busquem as devidas adequações a ela, mesmo que ainda deva demorar um pouco para ser traduzida para o português. É preciso ter em mente que se trata de uma norma internacional e os países desenvolvidos já estão no processo de enquadramento a ela.
A atual combinação de fatores desafiantes é um bom momento para mostrar o potencial das fontes alternativas de energia? O surgimento da norma vem a esse encontro?
Dias – O combustível híbrido posiciona-se como uma tendência natural de médio prazo. No Brasil, o diesel é o produto mais utilizado no transporte público e seria muito difícil fazer uma transição direta para o álcool. A tendência, então, é uma passagem por um tempo significativo para o combustível híbrido, que é muito mais vantajoso do ponto de vista ambiental. O motor não perde em termos de rendimento ao passo que diminui muito a emissão de CO2. A substituição dos combustíveis fósseis, no entanto, é uma tendência mais rápida, principalmente em função das decisões tomadas na COP 21, em Paris, onde uma das metas do governo brasileiro foi a diversificação de sua matriz energética.
Nós sabemos que não há condições de usar somente energia solar ou energia adquirida por biomassa, mas é preciso haver de fato essa diversificação da matriz energética brasileira. Hoje, no Rio Grande do Norte, por exemplo, há uma priorização por ações relacionadas à área de aproveitamento de energia solar. Isso está sendo muito positivo, porque esse aproveitamento não acontece somente por parte de grandes empresas ou volumes. Podemos acompanhar uma infinidade de miniusinas de energia solar se constituindo no estado. É claro que não ocorrerá a mesma coisa em São Paulo, onde não encontramos os mesmos privilégios do Rio Grande do Norte em relação ao uso do sol, mas isso deixa claro que é preciso encontrar os caminhos mais apropriados para cada região encontrar sua própria maneira de ter uma matriz energética mais sustentável.
Como o senhor avalia incentivos públicos à energia verde? A situação tende a mudar no curto prazo frente ao cenário atual?
Dias – Em âmbito governamental, ainda há uma priorização por combustíveis fósseis. Na verdade, vivemos hoje uma situação absurda do ponto de vista global: enquanto a gasolina está em um preço muito baixo (cerca de US$ 40 por barril), o custo do pré-sal chega a US$ 100 por barril. Ou seja, continuamos explorando produtos dessa origem, sendo que já tínhamos condições de estar ampliando a utilização do álcool e de combustíveis híbridos no transporte público, por exemplo.
Ainda não colocamos isso em prática por falta de incentivo governamental. Por outro lado, vejo uma tendência do setor empresarial de esperar por ações do governo, quando o ideal seria ter uma visão global sobre os negócios. Práticas sustentáveis são uma tendência já consolidada. Conscientes de que não há futuro para os combustíveis fósseis, os países árabes estão dando enfoque aos investimentos em turismo e prestação de serviço. Um posicionamento estratégico de médio e longo prazos também deveria ser adotado pelo Brasil pela questão competitiva no mercado global.


Fonte: Revista O Papel / Janeiro de 2016



Publicidade


Deixe seu comentário no espaço abaixo ou clique aqui e fale conosco.


Nome: Email (não aparecerá no site):




Comentário(s) (0)


CIFlorestas disse:

23/08/2019 às 10:47

Nenhum comentário enviado até o momento.

Novidades do Site


Quer divulgar sua empresa ou está buscando uma empresa florestal?

As mais lidas


Pensamento

A melhor maneira de realizar os seus sonhos é acordar.
Paul Valéry

Vídeo

Bureau de Inteligência

Análise Conjuntural
Editais
Produções Técnicas

Patentes
Cartilha Florestal
Legislação



Publicidade

Mercado

Cotações
Câmbio
Mapa Empresarial


Enquete

Do ponto de vista técnico e operacional, qual é a melhor unidade para comercialização da madeira para carvão?

volume de madeira sólida (metro cúbico)
tonelada de madeira
metro estéreo ou metro de lenha
unidade ou peças de madeira

Receba no seu email

Análise Conjuntural

Estudo e análise de especialista sobre o mercado de florestas.

Newsletter

Receba as novidades do setor de florestas no seu email.

Nuvem de Tags


1148 visitas nesta página

Polo de Excelência em Florestas

Parceiros

AMS  |   ECOTECA DIGITAL  |   EMBRAPA FLORESTAS  |   EPAMIG  |   FAEMG  |   INTERSIND  |   LARF  |   MAIS FLORESTAS  |   MAPA  |   SEAPA  |   SEBRAE  |   SECTES  |   SEDE  |   SEMAD  |   SIF  |   UFLA  |   UFV  |   UFVJM  |   UNIFEMM  |  

Colaboradores

ACELERADORA DE  |   AGROBASE  |   AGROMUNDO  |   APABOR  |   BRACELPA  |   CIENTEC  |   FAPEMIG  |   FINEP  |   IEF  |   LATEKS  |   PAINEL FLORESTAL  |   TRATALIPTO  |   UFV JR. FLORESTAL  |  
Desenvolvido por Ronnan del Rey