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09/11/2015

Tragédia em Mariana abre espaço para pensar sobre o progresso a qualquer custo

Foto: G1
Não vou listar detalhes ou números de vítimas da tragédia ambiental e social causada pela rompimento de duas  barragens de rejeitos no processo de mineração em Minas Gerais. As notícias em todos os sites, jornais, revistas, televisões, certamente abastecem a curiosidade de quem não está na cena mas se comove, se deixa afetar e busca informações. Imaginar um mar de lama tóxica soterrando pessoas, invadindo casas, arruinando tudo em volta, causando mortes e ferimentos é cruel demais.  Mais do que nossa imaginação, a internet nos aproxima do local.  Há pouco assisti a um vídeo que praticamente me “levou” até lá.
 
Já que o papel da mídia está sendo muito bem realizado, entendo que o meu papel, de quem tem comentado neste espaço sobre a produção industrial dentro do escopo da possibilidade de uma nova economia, de um jeito diferente de fazer negócios, é procurar refletir sobre o acidente com o viés dos discursos corporativos que pregam mudanças por um mundo melhor. Sim, acidente. E não incidente, como estava escrito no site da empresa Samarco - joint venture entre Vale e BHP Billiton Ltd. -  logo depois da tragédia. Não é só uma questão de semântica, nem preciosismo com o uso correto das palavras. Incidente é um evento que leva a um acidente. Não foi o que vimos ali.
Talvez eu não tenha uma linha de pensamento sequencial para oferecer a vocês. Estou imersa em notícias de diversos sites diferentes, inclusive internacionais, tentando captar mais minúcias sobre o que aconteceu. Vale registrar que a maioria incluiu a notícia em outras editorias, que não a de meio ambiente.
 
Apontar culpados será papel da Justiça e, como já ouvi diversas vezes de pessoas que têm uma relação profissional crítica ao mundo corporativo, até mesmo o pagamento por danos tão terríveis poderá ser motivo de reviravoltas nos tribunais (leia aqui). A essa hora já deve existir um exército de advogados tratando de achar firulas que possam livrar as empresas envolvidas de prejuízos maiores.
 
Pretendo fugir, portanto, da proposta de achar vilões. Não vou comprar a ideia de concluir que a pessoa que tomava conta da retranqueta da parafuseta não fez certo seu serviço. Também não acredito que as empresas envolvidas tenham como meta atingir e fazer mal, até porque isso causa um baita estrago à própria imagem, como se viu nos noticiários econômicos dando conta da queda de preços das ações depois do desastre.
 
Minha provocação é outra. Quero pensar sobre o desenvolvimentismo. Há uma relação intrínseca entre desastres  ambientais como esse do qual estamos falando e a produção que visa à maximização do lucro para fazer frente à expectativa mundial e ocupar o ranking dos mais bem sucedidos.
 
Para ajudar a refletir, vale dizer que:
 
Em junho de 2001 cinco operários morreram, uma adutora foi arrastada e o córrego Taquaras, no ditrito de Macacos quando a cava 1 da Mineração Rio Verde se rompeu.
 
Em janeiro de 2007, pelo menos 4 mil moradores de Miraí, na Zona da Mata, foram obrigados a sair de casa por causa de uma avalanche de lama provocada pelo rompimento de duas barragens de rejeitos de bauxita da Mineração Rio Pomba Cataguases.
 
Em agosto do ano passado, um operário morreu e outro se feriu no desabamento de um túnel de sete metros de diâmetro na Mina do Pico, em Itabirito, na região Central. A mina é propriedade da Vale e, segundo o Corpo de Bombeiros, estava em obras.
Em setembro, também do ano passado, um deslizamento de terra em uma das barragens de rejeito de minério da Mineração Herculano provoca a morte de três operários, em Itabirito.*
 
Situações que ocorreram só ali, na mesma região. Se eu for pesquisar rompimentos de barragem mundo afora, certamente iria encher esse espaço com datas, números de vítimas. Assim mesmo, sabendo dos riscos envolvidos, tendo em conta os vários casos, empresas construíram uma barragem para conter rejeitos tóxicos da produção industrial perto, bem perto, de casas e monumentos históricos, segundo denunciou o promotor de Justiça e coordenador do Núcleo de Combate a Crimes Ambientais do Ministério Público Estadual, Carlos Eduardo Ferreira Pinto. Alguma coisa está fora da ordem.
 
A ideia não é defender um pé no freio da produção industrial. Mas é preciso pensar seriamente num outro modelo, como já se tem dito.  A questão é perceber também que a inovação tecnológica, expressão muito usada pelas empresas para anunciar suas boas intenções para um “futuro sustentável”, está custando a chegar onde precisa.
 
Na nota divulgada pelo Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), há a informação de que os trabalhadores ouviram estrondos na hora do almoço de ontem (5). Assim mesmo, diz a nota, as atividades continuaram. Outra nota, assinada por 96 movimentos socioambientais e publicada no site do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) assume, legitimamente, um tom bastante raivoso frente à tragédia:
 
“Acidentes e impactos da mineração acontecem recorrentemente, as empresas continuam com a mesma postura prepotente de “responsabilidade social e ambiental” e ainda fazem uma cortina de fumaça sobre os reais fatos nesses momentos, como a Samarco (que é 50% da Vale e 50% da BHP Biliton) está fazendo”, diz a nota (leia aqui) .
 
Estava me preparando para escrever, hoje (6), sobre o caso do naufrágio do navio Haidar no cais do porto de Vila do Conde, em Barcarena, Pará, no dia 06 de outubro, há exatamente um mês. Cinco mil bois vivos que viajariam para o Líbano num navio morreram depois que a embarcação onde estavam confinados virou. A Praia do Conde, em Barcarena, ainda está interditada e hoje o mau cheiro predomina (voltarei ao assunto na semana que vem).
 
Não há paralelo possível entre os dois acidentes se levarmos  em conta o drama vivido pelas famílias de Mariana. Mas o fato é que com a venda de bois vivos o estado do Pará se elevou economicamente e se tornou um dos maiores exportadores. Há, pois, razões econômicas a nortearem iniciativas de empresários que fazem vista grossa ao risco – de rompimento de barragem à mortandade de bois e poluição do rio - quando percebem possibilidade de vantagens econômicas. E isso não é novidade para ninguém. Muitos consideram mesmo “incidentes de percurso”, legítimos em nome de um bem maior, o progresso.
 
A questão é até quando essa atitude vai se permitir conviver lado a lado com discursos de preocupação ambiental ou social como os que vamos ouvir à exaustão daqui a 24 dias, quando começar a Conferência dos Países sobre Mudança Climática convocada pelas Nações Unidas em Paris. Aproximar intenções de gestos é um desafio e tanto neste nosso mundo tão confuso.


Fonte: Amelia Gonzalez - G1



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Comentário(s) (1)


Luiz disse:

09/11/2015 às 13:35

Texto altamente tendencioso. Nao esperava ler isso na ciflorestas.
Até parece que o icms da vale e bhp nao é importante pra MG... Seja realista e menos eco doido rapaz.

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